Este é um artigo de opinião da Dra. Ana Rita Andrade.
Estamos na infeliz situação de não termos as nossas declarações aceites com credibilidade pelas pessoas que tomam as decisões, e este será sempre o problema quando os políticos são encarregues de tentar dar sentido a princípios científicos complexos.
Estou a colocar algumas questões, que na minha opinião são cruciais sobre os desafios que a indústria da canábis medicinal enfrenta, e a minha crítica foca-se principalmente em dois pontos principais: a falta de diversidade nos quimiotipos da canábis e o controlo de qualidade inadequado.
Relativamente a falta de diversidade nos quimiotipos, refiro-me ao fato de que, em muitos casos, a indústria da canábis ainda utiliza um número muito limitado de quimiotipos (variedades químicas) da planta. A canábis contém diversos canabinóides e terpenos que podem ter diferentes efeitos terapêuticos. O uso exclusivo de quimiotipos I, ou seja, variedades de canábis com uma proporção muito elevada de THC e pouco ou nenhum CBD, limita a variedade de tratamentos disponíveis para os pacientes. Isto leva a um uso inadequado da planta, sem uma oferta ampla de produtos adequados a diferentes necessidades terapêuticas. Isto também resulta em qualidade inconsistente dos produtos, já que nem todos os quimiotipos têm os mesmos perfis de canabinóides e terpenos necessários para tratar condições específicas de saúde.
Quimiotipos referem-se aos tipos químicos encontrados nas plantas de canábis, que são definidos pela composição dos canabinóides (como THC, CBD) e terpenos (os compostos aromáticos que influenciam o efeito da planta) que variam em termos de composição química.
Gostava de enfatizar a importância de não misturar canábis medicinal e recreativa por várias razões. Uma das razões mais importantes é que a canábis medicinal deve ser cuidadosamente formulada para tratar condições médicas específicas, enquanto a canábis recreativa é muitas vezes consumida apenas para efeitos psicoativos (principalmente o THC).

Numa distinção breve:
Canábis medicinal: utiliza variedades específicas, com perfis de canabinóides e terpenos bem definidos para tratar condições como dor crónica, ansiedade, epilepsia, entre outras. A planta precisa de ser cultivada, processada e testada de forma rigorosa, com controle de qualidade para garantir a eficácia e segurança do tratamento.
Canábis recreativa: é geralmente escolhida com base no seu efeito psicoativo (geralmente maior concentração de THC) e não exige o mesmo nível de rigor na qualidade ou nas propriedades terapêuticas que são exigidos na medicina.
Na minha opinião, na indústria medicinal, é necessário ter tipos de canábis específicos para necessidades terapêuticas, e que não podemos tratar a planta como um produto recreativo. Ou seja, o cultivo de canábis para fins médicos deve ter um controlo de qualidade rigoroso para garantir que os produtos não só são seguros, mas também eficazes para os pacientes.
Quando me refiro a controlo de qualidade para a canábis medicinal, estou a alertar para a necessidade de um processo regulado e normatizado, onde a planta é cultivada e processada com padrões elevados - COA (Certificate of Analysis). Isso inclui:
- Testes laboratoriais rigorosos para garantir a composição correta de canabinóides e terpenos.
- Controlo de contaminantes como pesticidas, fungos ou metais pesados, que podem afetar a saúde dos pacientes.
- Rastreabilidade do produto, para que se saiba exatamente de onde vem a planta e quais as condições de cultivo.
Em comparação, a canábis recreativa, embora também precise de um certo nível de controlo, não exige a mesma qualidade ou a mesma consistência que a canábis medicinal. A canábis medicinal deve ter composição e efeitos previsíveis, o que não é sempre uma prioridade no mercado recreativo, onde as pessoas estão mais interessadas no efeito imediato.
Técnica de Extração
Outro problema na indústria é a extração - Como fazer a extração da melhor forma para preservar os compostos chave? Já se sabe há muito tempo que a flor de canábis seca e curada pode-se perder até 50% do conteúdo de monoterpenóides nesse caso, esses compostos são essenciais e não devem ser desperdiçados.
A empresa que for a primeira a fornecer fitocanabinóides e terpenoides de qualidade farmacêutica derivados da canábis será a que estará na posição mais favorável para o comércio futuro nesta área.
Em resumo
A indústria da canábis medicinal precisa de mais diversidade de quimiotipos para atender a uma gama maior de necessidades terapêuticas.
A canábis para fins medicinais e recreativos devem ser tratadas de forma separada, pois as exigências para um produto medicinal são muito mais rigorosas e focadas na qualidade e segurança.
O controlo de qualidade da canábis medicinal deve ser extremamente rigoroso, com testes e regulamentações que assegurem a eficácia e a segurança do produto, enquanto a canábis recreativa não exige o mesmo nível de controle.
O meu objetivo foi mostrar a necessidade de garantir que os produtos de canábis para fins terapêuticos sejam consistentemente eficazes e seguros, de forma que os pacientes possam contar com tratamentos que atendam às suas necessidades específicas, sem risco de baixa qualidade ou resultados imprevisíveis.